Amo uma folha verde, uma borboleta azul, um cabelo negro.
Como se ali fosse a pousada de um destino ingrato redimido.
Sorvo do vento que passa o aroma de uma esperança desabrida, como se de repente o musgo se enchesse de um orvalho absoluto.
E sigo fruindo, até ao fim dos horizontes todos que no tempo do hoje desfalecem.
quarta-feira, agosto 29, 2007
terça-feira, agosto 07, 2007
PÉTALAS
quinta-feira, junho 21, 2007
O MEDO
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
CANTARAM ATÉ OS LUARES DE JUNHO

cantaram até os luares de Junho
na alvorada de teu corpo amado
teus seios se abriram a meus lábios
em sua doce maternidade menininha
colhi então de teus cabelos
os nenúfares sem fim do hálito das pérolas
com eles em meu peito cheguei nas taprobanas
de minha mente escondida
de lá se soltaram algas, cabelos de novo
agora nossos
elas correram por nós dois adentro
e tu não foste mais minha que eu teu
fomos tão só e tanto o infinito
ali parado por um breve pouco
ai que Deus é também isto
só pode
aqui vida e morte são uma só terceira coisa
nós dois em sinfonia e basta
jaime vehuel
05fev07,lx
terça-feira, janeiro 23, 2007
VI A LUA AO REDOR

Vi a Lua ao redor de mim nas quatro fases todas, circulando.
Ela trazia variações, essas traiçoeiras fontes de vitalidade e púrpura.
Pousada na dita me dizias coisas que o coração atende e a mente se ocupa em negar, e que a intuição manda que a elas o jogo se entregue e ceda sem nada ceder – ou seja, ame.
Há de mim um olhar translúcido apesar do escuro, uma visão de névoa luminosa como a de Avalon das feiticeiras brancas. Oh, como eu gostaria que assim já fosse.
jaime vehuel
segunda-feira, dezembro 18, 2006
LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer ele venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
domingo, dezembro 03, 2006
VIDRADOS EM NINFA
quinta-feira, novembro 30, 2006
TERCEIRA LAMENTAÇÃO

Injustamente, Senhor, injustamente
a fúria do teu açoite
me corta pela raiz...
Quando amassavas o barro e me geravas
tinhas nas mãos divinas que sujavas
a grandeza da força que me davas
para fazer o que fiz...
Nessa hora do teu parto
a minha fome era a tua...
E os sonhos e os desejos,
sonhados e desejados
nos quatro cantos fechados
da minha noite sem luar nem lua,
eram teus...
Eu ainda não era o Homem,
e tu já eras o Deus...
Era simples e bonito:
mudavas o curso ao rio
antes de o rio nascer;
e depois tinhas um rio
sem este ar de desafio,
sem este aspecto sombrio
que vim a ter...
Tinhas o homem castrado
que a tua doutrina tem...
O macho desnaturado
com a mulher a seu lado
à espera do arranque desejado
que não vem...
Tinhas outro, menos eu,
que não posso andar no céu
de pés colados no chão...
Tinhas outro, que não era
nem a mais humilde fera,
nem a mais falsa quimera
dum meu irmão...
tinhas quem tu quisesses, menos quem
conhece os vícios que tem
mas sabe que saiu de sua Mãe
homem vivo,
para negar a qualquer,
seja Deus, seja mulher,
um simulacro sequer
de amor passivo...
Porque, senhor, onde chego
chega o fogo da fogueira...
Ardo e dou calor à Vida
para me aquecer a Ela...
E chego a ter nos braços a donzela,
só porque a minha paixão é verdadeira!...
E não te peço perdão de ser assim.
Sou tal e qual como vim
de teu celeste jardim
para as selvas brutais da Natureza...
Não tenho culpa de a Obra
cair, por causa da Cobra,
das tuas mãos sem firmeza.
Não tenho culpa de nada!
Tivesses a mão fechada
ou aberta de outra maneira...
O que sou é o que serei,
contra ti ou qualquer lei
que não queira...
Atiro o salto mortal
e concentro a força toda
no assombro da multidão...
E morto ou vivo apareço
dono de quanto mereço,
e a valer o justo preço
que me dão...
Conquisto a Vida e o Pão de cada dia!
Bebo Sol quando há Sol, e noite quando há noite,
e grito quando a voz do teu açoite
fende o meu corpo em dois e o deixa inteiro.
E quando junto do muro me ajoelho,
quebra-me as pernas o costume velho
de te sonhar às vezes justiceiro...
Miguel Torga, in O outro Livro de Job
ver também O Livro de Job em www.religa.blogspot.com, arquivo dez 2006
terça-feira, novembro 28, 2006
CANHÕES DE BRONZE
canhões de bronze abalam um pouco a calma dos peixes voadores
desertos de tremideiras mostram-se como queijo das ilhas em vermelho
alarves varejeiras povoam de azul e verde os enxames de trigo
varinas soltam pregões como águias em pranto sustenido
brutamontes carregam feixes de palha improvável mas candente
velas de mel consomem seus pavios como os bacalhaus devoram golfinhos
jaime vehuel
dez2007
desertos de tremideiras mostram-se como queijo das ilhas em vermelho
alarves varejeiras povoam de azul e verde os enxames de trigo
varinas soltam pregões como águias em pranto sustenido
brutamontes carregam feixes de palha improvável mas candente
velas de mel consomem seus pavios como os bacalhaus devoram golfinhos
jaime vehuel
dez2007
quarta-feira, novembro 15, 2006
PÉTALAS AZUIS
pétalas azuis sobre tua púbis
arroz salgado no horizonte branco
capelas de musgo na margem do riacho
formigas cinza no vale da madrugada
jaime vehuel
nov2006
arroz salgado no horizonte branco
capelas de musgo na margem do riacho
formigas cinza no vale da madrugada
jaime vehuel
nov2006
terça-feira, novembro 14, 2006
SETE ANOS DE PASTOR

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;
começa de servir outros sete anos,
dizendo: - Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Luís Vaz de Camões
imagem: www.analogia.org
sábado, novembro 04, 2006
ANJOS MANTÊM

Os anjos mantêm seus antigos lugares;-
Apenas viram um seixo, e tremulam uma asa.
Sois vós, vossas faces alheadas,
Que não percebeis o vento pleno de esplendor.
Mas (quando a tristeza já não puder ser tanta)
Chorai - e, sobre vossa tão dolorida perda
Brilhará o tráfego da escada de Jacob
Instalada entre os Céus e a Cruz.
Francis Thompson: The Kingdom of God is Within You
quarta-feira, novembro 01, 2006
MAIS DELíRIO

Avestruzes encandeiam sofás-cama de peluche.
Cães de peluche espirram o pólen deixado pelas abelhas.
Abelhas-raínha pedem ao parlamento autorização para terem férias.
As férias de Monsieur Patrick saiem furadas porque o avião implode.
Implosões assaltam os parques, abrindo enormes e verdejantes 18 buracos para o golf.
O golf conquista os camponeses do algarve já que as amendoeiras estão em vias de extinção.
Os extintores do ministério da justiça cobrem de pó branco balanças e vendas.
Venda do Pinheiro é uma terra onde agora se vende eucaliptos ao molho.
Molhos italianos assaltam os hambúrgueres sem que o Tio Sam seja chamado.
À chamada faltam 19 bancários porque o jogo do Sporting teve prolongamento.
Prolonga-se por mais um mês o visto turístico dos bandos de cegonhas em passeio por Trás-os-Montes.
Trás-os-Montes passam para a frente deles para verem melhor o Porto Calem e suas propostas de franchising.
As propostas estão sobre a mesa mas como a mesa só tem 3 pernas elas sentem-se coxas.
A coxia do teatro atrai 60 lebres menstruadas.
As lebres desafiam as tartarugas para uma demolidora desforra
A desforra é o des-forro num casaco de senhora.
A senhora dona Etelvina Ferreira Zêzere mandou arranjar o guarda-chuva ao sapateiro.
Os sapateiros desesperam ao polirem os novos sapatos pontiagudos femininos, seguramente sado-masos.
jaime vehuel
(foto: www.analogia.org)
resumo livre:
avestruzes espirram férias furadas abrindo golf de pó branco ao molho e ao molho 19 bancários em passeio para a frente e para a frente coxas do teatro desforram senhora (n)o sapateiro pontiagudo
sábado, outubro 28, 2006
DELÍRIO

Mosquitos lilazes povoam as laranjas de pomares desertos.
O Sol volta a meio invés o seu destino, levantando-se ao meio-dia e assim confundindo as capoeiras e os altos das igrejas.
Telhados de vidro povoam as cabeças humanas, o que dizer das almas.
Carteiros entregam envelopes de folhas de palmeira com tabaco à vista.
Os vinhos azedados substituem o vinagre às mesas.
As salsichas ganham sua guerra secular com as alheiras.
Bifanas são agora servidas com chantily da Indonésia.
As lages do palácio do governo passam a ser de relva, por exigência do Pinto da Costa.
O Douro é invadido pelo mar com tanta força que passa a correr ao contrário, levando tripas até Espanha.
Os Jerónimos são habitados por toureiros na reforma.
O Tejo torna-se numa banheira de sereios de peito peludísssimo lavando-se com óleo de palma.
As sereias do Tamisa chamam pelo continente como cães uivando em noite de trovoada.
A pirâmide do Louvre vira-se ao contrário para receber as chuvas em vez de chamar por elas.
As pontes de Florença enchem-se de ciganos apregoando os têxteis da China.
Os salgueiros cobrem de frio manadas de gatos fumegantes de vadiagem.
Os emigrantes de Leste manifestam-se pela primeira vez às portas de Alcobaça, com o alto patrocínio da TVI.
As chaimites deixam de novo Santarém, à procura de novos esposos.
O Duque de Trás-os-Montes traz Trás-os-Montes para Lisboa e é finalmente aclamado rei pelos joaquinzinhos.
jaime vehuel
(imagem: www.analogia.org)
terça-feira, outubro 17, 2006
NA SUPERFÍCIE REDONDA LISA

na superfície redonda lisa
dos encantos
correm afinal enormes
prantos
ao som de ventos selvagens
agonias
já no cubo encantado e
bem polido
se elevam outros os
gemidos
de um futuro prenhe
de secreta herança
escolher
entre d.quixote e sancho pança
ou sentir saber
toda a esperança no alçapão
de cada dia
jaime vehuel
(imagem: www.analogia.org)
quarta-feira, setembro 27, 2006
ALDINA DUARTE

(Fado)
17 Nov. 6ªFeira
CULTURGEST
Eu quero a alegria profunda que nos ampara para a frente ou para trás conforme o que houver por fazer ou refazer.
Em pequena sonhei com uma casa grande, depois de crescida, encontrei a casa à minha medida, quando sozinha e, noutras alturas, na companhia dos poucos que muito amo.
A repetição de tudo o que é intrinsecamente verdadeiro torna-se sabedoria e, por isso, amor maior... quero repetir-me em liberdade e convicção, quero a repetição dos silêncios alheios que me cabe cantar, porque essa é a minha função, quero repetir todas as palavras, a música das palavras é o seu sentido quando enviadas e recebidas por alguém, quero um tempo onde a leitura e o pão vivem na mesma casa, as crianças dançam e os amigos se encontram para descobrir músicas e onde, sem preconceitos, todos se juntam na construção dum mundo mais digno para qualquer forma de vida, fazendo e aprendendo o que for necessário.
Volto à Culturgest convidada de Miguel Lobo Antunes, volto a estar numa encenação do Jorge Silva Melo, volto a cantar originais nunca gravados do João Monge, volto a estar com o José Manuel Neto e com o Carlos Proença, volto a cantar só músicas de fados tradicionais com letras criadas para e por mim... e o que está para acontecer e não sei ainda.
Regresso ao amor e à esperança necessária e ao prazer possível neste mundo estranhamente cruel em que estamos a viver. Volto para quem me espera, porque as coisas verdadeiras são para toda a vida e não precisam de justificações!
Aldina Duarte
OS VASKOV NO ACQUA
sexta-feira, setembro 22, 2006
MITIGAR CAMPOS DE ARROZ

mitigar campos de arroz
em chamas
como quem faz
nichos no horizonte indisponível
trazer enfim a fonte do alecrim
aos molhos para dentro
jazer como quem parte do pé da laranjeira e
corre discorre
por fora da direcção do vento
encontrar nesse caminho outro sustento
já diferente do amado pão
uma fome que é mais de asas que de vinha
ai
porque será que o sonho lindo é que é
verdade
todavia o sol que sempre nasce sem vontade
da lua que há em si
quem dera fosse a vida enfim
o que é e
todavia a sombra luminosa
dessa vida tão sem luz que nos parece
estar
já basta de quem dera então
olhemos fundo
faço aqui eu um ai ainda mais profundo
afogo-me nele até se assim ele beija
erga-se bem alto o meu pranto defunto
que o fado é um combate e é sem fundo
e o amor do destino é uma bandeira
jaime vehuel
quinta-feira, junho 15, 2006
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