terça-feira, novembro 14, 2006

SETE ANOS DE PASTOR





Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: - Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.



Luís Vaz de Camões

imagem: www.analogia.org

sábado, novembro 04, 2006

ANJOS MANTÊM


Os anjos mantêm seus antigos lugares;-
Apenas viram um seixo, e tremulam uma asa.
Sois vós, vossas faces alheadas,
Que não percebeis o vento pleno de esplendor.

Mas (quando a tristeza já não puder ser tanta)
Chorai - e, sobre vossa tão dolorida perda
Brilhará o tráfego da escada de Jacob
Instalada entre os Céus e a Cruz.

Francis Thompson: The Kingdom of God is Within You

quarta-feira, novembro 01, 2006

MAIS DELíRIO



Avestruzes encandeiam sofás-cama de peluche.
Cães de peluche espirram o pólen deixado pelas abelhas.
Abelhas-raínha pedem ao parlamento autorização para terem férias.
As férias de Monsieur Patrick saiem furadas porque o avião implode.
Implosões assaltam os parques, abrindo enormes e verdejantes 18 buracos para o golf.
O golf conquista os camponeses do algarve já que as amendoeiras estão em vias de extinção.

Os extintores do ministério da justiça cobrem de pó branco balanças e vendas.
Venda do Pinheiro é uma terra onde agora se vende eucaliptos ao molho.
Molhos italianos assaltam os hambúrgueres sem que o Tio Sam seja chamado.
À chamada faltam 19 bancários porque o jogo do Sporting teve prolongamento.
Prolonga-se por mais um mês o visto turístico dos bandos de cegonhas em passeio por Trás-os-Montes.
Trás-os-Montes passam para a frente deles para verem melhor o Porto Calem e suas propostas de franchising.
As propostas estão sobre a mesa mas como a mesa só tem 3 pernas elas sentem-se coxas.
A coxia do teatro atrai 60 lebres menstruadas.
As lebres desafiam as tartarugas para uma demolidora desforra
A desforra é o des-forro num casaco de senhora.
A senhora dona Etelvina Ferreira Zêzere mandou arranjar o guarda-chuva ao sapateiro.
Os sapateiros desesperam ao polirem os novos sapatos pontiagudos femininos, seguramente sado-masos.

jaime vehuel



(foto: www.analogia.org)


resumo livre:

avestruzes espirram férias furadas abrindo golf de pó branco ao molho e ao molho 19 bancários em passeio para a frente e para a frente coxas do teatro desforram senhora (n)o sapateiro pontiagudo










sábado, outubro 28, 2006

DELÍRIO


Mosquitos lilazes povoam as laranjas de pomares desertos.
O Sol volta a meio invés o seu destino, levantando-se ao meio-dia e assim confundindo as capoeiras e os altos das igrejas.
Telhados de vidro povoam as cabeças humanas, o que dizer das almas.
Carteiros entregam envelopes de folhas de palmeira com tabaco à vista.
Os vinhos azedados substituem o vinagre às mesas.
As salsichas ganham sua guerra secular com as alheiras.
Bifanas são agora servidas com chantily da Indonésia.
As lages do palácio do governo passam a ser de relva, por exigência do Pinto da Costa.
O Douro é invadido pelo mar com tanta força que passa a correr ao contrário, levando tripas até Espanha.
Os Jerónimos são habitados por toureiros na reforma.
O Tejo torna-se numa banheira de sereios de peito peludísssimo lavando-se com óleo de palma.
As sereias do Tamisa chamam pelo continente como cães uivando em noite de trovoada.
A pirâmide do Louvre vira-se ao contrário para receber as chuvas em vez de chamar por elas.
As pontes de Florença enchem-se de ciganos apregoando os têxteis da China.
Os salgueiros cobrem de frio manadas de gatos fumegantes de vadiagem.
Os emigrantes de Leste manifestam-se pela primeira vez às portas de Alcobaça, com o alto patrocínio da TVI.
As chaimites deixam de novo Santarém, à procura de novos esposos.
O Duque de Trás-os-Montes traz Trás-os-Montes para Lisboa e é finalmente aclamado rei pelos joaquinzinhos.



jaime vehuel

(imagem: www.analogia.org)

terça-feira, outubro 17, 2006

NA SUPERFÍCIE REDONDA LISA



na superfície redonda lisa
dos encantos
correm afinal enormes
prantos
ao som de ventos selvagens
agonias

já no cubo encantado e
bem polido
se elevam outros os
gemidos
de um futuro prenhe
de secreta herança

escolher
entre d.quixote e sancho pança
ou sentir saber
toda a esperança no alçapão
de cada dia


jaime vehuel

(imagem: www.analogia.org)

quarta-feira, setembro 27, 2006

ALDINA DUARTE


(Fado)
17 Nov. 6ªFeira
CULTURGEST


Eu quero a alegria profunda que nos ampara para a frente ou para trás conforme o que houver por fazer ou refazer.

Em pequena sonhei com uma casa grande, depois de crescida, encontrei a casa à minha medida, quando sozinha e, noutras alturas, na companhia dos poucos que muito amo.

A repetição de tudo o que é intrinsecamente verdadeiro torna-se sabedoria e, por isso, amor maior... quero repetir-me em liberdade e convicção, quero a repetição dos silêncios alheios que me cabe cantar, porque essa é a minha função, quero repetir todas as palavras, a música das palavras é o seu sentido quando enviadas e recebidas por alguém, quero um tempo onde a leitura e o pão vivem na mesma casa, as crianças dançam e os amigos se encontram para descobrir músicas e onde, sem preconceitos, todos se juntam na construção dum mundo mais digno para qualquer forma de vida, fazendo e aprendendo o que for necessário.

Volto à Culturgest convidada de Miguel Lobo Antunes, volto a estar numa encenação do Jorge Silva Melo, volto a cantar originais nunca gravados do João Monge, volto a estar com o José Manuel Neto e com o Carlos Proença, volto a cantar só músicas de fados tradicionais com letras criadas para e por mim... e o que está para acontecer e não sei ainda.

Regresso ao amor e à esperança necessária e ao prazer possível neste mundo estranhamente cruel em que estamos a viver. Volto para quem me espera, porque as coisas verdadeiras são para toda a vida e não precisam de justificações!

Aldina Duarte

OS VASKOV NO ACQUA

Van Gogh (ao lado) foi o maior!
Mas o casal Valeriy Vaskov e Mariza Vaskova são tb mto bons.
São ucranianos e estão a expor no centro comercial Acqua - um cc muito requintado, na Av. de Roma

sexta-feira, setembro 22, 2006

AMALGAMA

MITIGAR CAMPOS DE ARROZ




mitigar campos de arroz
em chamas
como quem faz
nichos no horizonte indisponível

trazer enfim a fonte do alecrim
aos molhos para dentro

jazer como quem parte do pé da laranjeira e
corre discorre
por fora da direcção do vento

encontrar nesse caminho outro sustento
já diferente do amado pão
uma fome que é mais de asas que de vinha

ai
porque será que o sonho lindo é que é
verdade
todavia o sol que sempre nasce sem vontade
da lua que há em si

quem dera fosse a vida enfim
o que é e
todavia a sombra luminosa
dessa vida tão sem luz que nos parece
estar

já basta de quem dera então
olhemos fundo
faço aqui eu um ai ainda mais profundo
afogo-me nele até se assim ele beija

erga-se bem alto o meu pranto defunto
que o fado é um combate e é sem fundo
e o amor do destino é uma bandeira



jaime vehuel

quinta-feira, junho 15, 2006

MELANCOLIA Albrecht Dürer



http://images.google.pt/images?hl=pt-BR&q=durer&sa=N&tab=wi

segunda-feira, maio 29, 2006

VIDA DO MAR

Quantas tardes, eu vou, sozinho, passear
Ao longo do brumoso e soluçante mar...
E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas,
Entre as rochas que estão de espuma coroadas,
Tristes habitações de pobres pescadores...
Telhados pra abrigar soluços, ais e dores.
São choupanas onde há postigos e janelas,
Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas,
Navios onde vai ao leme a Saudade...
Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade...

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

terça-feira, maio 23, 2006

BORDA D'ÁGUA


Olá de novo, depois de uma greve de um mês em protesto contra a falta de visitas.

Trago-lhe hoje uma reprodução da actualidade segundo o prodigioso almanaque Borda d'Água.
Assim reza para 4ªf/24 Maio (o mês em que os camionistas põem flores Maias nas grelhas para afastar os maus-olhados):

Quarto Crescente.
Dia de Sta Suzana e do nascimento de Ferreira de Castro.

E para o mês de Maio todo:

Lavre à volta das matas (limpas...) para afastar incêndios. Tratar e regar os batatais. Iniciar a transplantação de arroz. semear girassol e soja não transgénico. Enxertar medronheiros, damasqueiros, amendoeiras, cidreiras e laranjeiras; plantar tomate. Na Horta semear no Crescente, em local definitivo, abóboras, agrião, alface, beterraba, bróculos, cenoura, couves, ervilha, espinafre, fava, feijão, melancia, melão, nabo, pepino, pimentos, rabanete, repolho. Colher alcachofras, espargos, ervilha, cebola verde, etc. No Jardim semear cravos, mangericos, trepadeiras e plantas anuais. Colher flores para semente. Animais (no Crescente): castrar gado, tosquiar as ovelhas, procria de cabras e coelhos.

sexta-feira, abril 14, 2006

HOMENAGEM A RISOCORDETEJO


LÁGRIMACORDEDOURO

Ó Porto meu querido pai
Com Graal fazes nação
No Porto p’r’ além da bola
Há um Povo com paixão

De granito me fizeram
Lá na Leça do Balio
De granito são as pedras
Do Porto meu arrepio


Ó meus rabelinhos d’ouro
Cantai a Ribeira afora
Senão cantais rabelinhos
Minha noiva vai-se embora


Paranhos do meu amor
Massarelos minha amada
Fui nascer a Cedofeita
Freguesia e namorada

Ó igreja do Marquês
Senhora da Concepção
Trazei os anjos à terra
Cuidai da minh’oração

Ai gentes da Boavista
O eléctrico a rondar
Dezoito p’ra Matosinhos
Pesca Leixões a nadar

Pontinha de D.Luís
Em terra republicana
Carros em cima e em baixo
Conquistando Gaia a mana

Já vejo o Monte da virgem
Já me parece o Choupal
Meu amor traz-me o teu lenço
Coração cor de sisal

jaime vehuel




(foto: constelação)

terça-feira, abril 11, 2006

AH O CANSAÇO


ah
o cansaço
o quase desalento
a última gota a querer
fugir da frágil
taça de jasmim

o sol depois e
sempre
teimoso ainda e
sempre
e sempre laranja em gomos
em se me vertendo

e outra vez a lua
minguando
e outra vez tão cheia
em espelho

como escapar ao destino
gerindo
lhe cedendo?

jaime vehuel



(foto: Amálgama - Companhia de Dança de Mafra)

quarta-feira, março 22, 2006

DEPOIS DE MULHOLAND DRIVE (II)*

um lobisomem sai
fumegante
do café servido à mesa
homem dos fundos
homem do saco
nevoeiro do receio de medos
ainda insabidos
improváveis factos mas personas certas
tão reais artérias horríveis
de mil inconscientes mal dormidos

éclair de jeans aberto
uma púbis em azul riscado
a mão trota
e já cavalga agora toda louca
rumo ao ligeiro torpor de um prazer
falido

sou eu o lobisomem
de mim própria
sou minha alma olhando o medo
de meus olhos cegos
as placas na lapela sempre em troca
como se eu fosse rouca
e o serviço em cacos

caídas
de um tabuleiro fantasma
como tantos anjos
as chávenas de café concreto
ganham chão
para se reunirem

só depois de se passar pela paixão do lobo
o Capuchinho se avermelha


jaime vehuel
mar.2002

*Mulholand Drive: filme de David Linch


A STAR IS DEAD

Fonte: www.portaldoastronomo.org
Ilustração representando a evolução de uma estrela. Quando a estrela consome todo o seu combustível entra em colapso. Se a estrela tiver massa suficiente o colapso dará origem a um buraco negro; este rapidamente formará jactos; as ondas de choque irão expelir as camadas exteriores. As fulgurações de raios gama são os sinais da morte estelar e do nascimento de um buraco negro. Crédito: Nicolle Rager Fuller / NSF

terça-feira, março 14, 2006

DEPOIS DE MULHOLAND DRIVE (I)*

há um sofá cama fechado
por dentro da sala turquesa
plena
de lençóis enxutos
e humidade nas paredes ocas

uma cabeleira loira beija
morena cabeleira lívida
como os vampiros beijam
os fantasmas

são olhos cegos de olhar
os que ali se desencontram
são lábios frementes
de algas consumidas
castanhas frias
às duas da manhã da vida

pântanos
os nossos pântanos de estimação
abridos
corpos escancarados e leitosos
exauridos para mais defecagens de
poli-chinelo
convidando agora ao
conhecimento do inferno
por inteiro

não se chega ao âmago da alma
sem passar pelas contra-curvas


jaime vehuel
mar.2002
*Mulholand Drive: filme de David Linch

terça-feira, março 07, 2006

DIA DA MULHER


Acho que, infelizmente, ainda se justifica um dia anual dedicado a que atentemos na condição da mulher. Em alguns lugares por razões candentes de ausência dos direitos humanos mínimos. Mas mesmo aqui também, sobretudo a nível privado, em numerosos detalhes do quotidiano. Mau grado ter vindo a conhecer nas empresas algumas mulheres que, chegando a postos de poder, se revelam bem mais selvagens que a maioria dos homens. (Será uma vingança?)
Deixo umas pequenas frases que há uns anos escrevi para minha Mãe (e que aliás ainda não cheguei a dar-lhe...):

deste Lua a meu Pai
o Sol em ti crescia
e já maduro
deste ao mundo em mim
teu coração.


jaime vehuel

Foto: Andres Amador, www.analogia.org

sábado, março 04, 2006

AO MESMO TEMPO


Embora a teoria das ondas de luz tivesse sido apresentada um século antes, Einstein introduziu a idéia de que a energia é uma estrutura granular quantificada: se expressa em "pacotes" (quanta) e as próprias ondas são quantificadas. Dito de outro modo, a luz é, ao mesmo tempo, ondas e partículas, o que ainda hoje continua desafiando o senso comum.

Texto completo em:
www.
ctjovem.mct.gov.br/index.php?action=/content/view&cod_objeto=20267

Foto:

Andres Amador, Kid and pod
www.analogia.org

sexta-feira, março 03, 2006

QUANDO EU FOR


O que é que eu vou ser quando eu for grande?
Quando eu for grande vou ser pequeno outra vez. Aí é que eu me vou divertir que nem uma avestruz!
Vou ser dono de um grande circo argentino.
Antes de mais nada defino como objectivo apaixonar-me pela trapezista, como o anjo do Wim Wenders - mas sabendo esperar por aquele momento, quiçá fugaz, em que esteja disponível para amar.
Sim, porque no fundo no fundo o que eu desejo é ser trapezista, e talvez ela mo ensine.
Enquanto espero pela trapezista convido os dois palhaços - os dois - e trago-os para um jantar na minha roulotte com chuveiro, na esperança de que eles me ensinem as máscaras de que sinto tanta falta.
Já devidamente mascarado, contrato 7 elefantes, só para fazerem a guarda de honra da arena em movimento: catrapum-catrapum, catrapum-catrapum (um truz-truz-truz em grande no tecto do vizinho de baixo).
Como os leões estão pela hora da morte, limito-me a projectar num lençol branco aquela cena do Quo Vadis no circo romano.
Depois vou à rua das Portas de Sto Antão e convido um daqueles cuspidores de fogo que andam por lá com cães vadios e muitos piercings - para o arrancar das ruas vai ser um tormento.
Cãezinhos amestrados só se for aquele minúsculo que anda pela rua do Ouro ao ombro de um menino que tenho visto a crescer por trás de um acordeão. (O menino, agora com os seus 9 anos, não pede: limita-se a tocar e a expor o cão sossegado com um fundo de garrafa de plástico pendurado na boca. Quando o menino acha que os trocos começam a ficar pesados para o cachorro, pára e recolhe.)
Como a coisa já está meio composta, ponho o que já está a treinar para ver se funciona.
Sim, funciona.
Ponho então um anúncio no Destak, com aquele verde deslavado que agora tem o Espírito Santo (o banco) a dizer: Precisa-se senhora trapezista para circo-modelo em grande ascensão. Oferece-se ambiente familiar, salário compatível, descontos para a segurança social e rede física da melhor qualidade existente nas lojas chinesas da zona da Praça do Chile. Solicita-se carta astral para avaliação prévia de compatibilidades temperamentais (com os elefantes guardas de honra). Entrevistas no próximo domingo ao meio-dia no adro da igreja dos Anjos, seguidas de almoço-convívio na Sopa dos Pobres.
Depois a trapezista escolhe-me, eu apercebo-me, ela ensina-me a sua arte, eu ensino-lhe a minha, vendo-lhe o circo por uma côdea de pão, passo a ser trapezista, se ela quiser acumular a gestão do circo ainda com o trapézio fazemos um pas-de-deux e pronto.
Em qualquer caso, temos um monte de crias e somos felizes para sempre.


jaime vehuel